domingo, 29 de novembro de 2009

Vida Refinada [trecho]
























O açúcar branco é a sacarose isolada pelo refinamento do caldo da cana-de-açúcar. Não é um alimento encontrado pronto na natureza, sendo necessário ser isolado e concentrado por processos industriais. Consequentemente, não é um alimento saudável. A natureza nos fornece alimentos completos, com nutrientes correlacionados, não substâncias isoladas. Fomos adaptados para digerir a glicose encontrada nas frutas, nos tubérculos, nos cereais, e não a superdose introduzida com o açúcar refinado. Essa alta dosagem de glicose de uma só vez desestabiliza nosso metabolismo, provocando perda de minerais como o cálcio, magnésio, dentre outros.

Sua ingestão regular pode causar diversos problemas de saúde como: osteoporose, obesidade, câncer, cárie, reumatismo e diabetes melito. A diabetes é o melhor exemplo de como uma substância criada artificialmente pode danificar para sempre nosso organismo – isso porque a função de tal composto é unicamente ser saboroso. Se quiser levar uma vida saudável, a pessoa que desenvolve diabetes deverá fazer o que todos já devíamos fazer: levar uma alimentação sem açúcar branco. O impressionante é que até 300 anos atrás ninguém usava aditivos doces nas refeições diárias. Hoje em dia, muitas pessoas diabéticas veem na abstenção do açúcar um empecilho para encontrar prazer na sua alimentação.

A divisão do trabalho permite que as atividades necessárias para a manutenção da sociedade massificada sejam divididas entre as classes sociais. A cada classe compete um determinado tipo de atividade e a cada tipo de atividade cabe uma remuneração. Quanto mais complexa a sociedade, maior a gama de atividades (e remunerações). O termo divisão social do trabalho é o mais adequado e completo, uma vez que as barreiras de classe determinam os diferentes trabalhos e remunerações – a faxineira não realiza a atividade do engenheiro, e muito menos ganha um salário próximo ao valor do salário deste. E vice-versa.

Abrigo, alimento, saúde e higiene são demandas de cada indivíduo e, logo, de toda a sociedade ao mesmo tempo. No entanto, as atividades necessárias para que disponhamos desses itens estão divididas socialmente de uma forma desigual. Ou seja, as demandas são de todos igualmente, mas o trabalho realizado para o suprimento delas não é dividido de forma igualitária. Alguns trabalham mais que outros, alguns sujam as mãos mais que outros, mas alguns – que não são estes – são mais bem remunerados.

Algumas de nossas atividades cotidianas podem ser mais prazerosas que outras. Mas o domínio da realização de todas elas é indispensável para fundamentar a autonomia individual e para a superação do estado de alienação que nos mantém reféns daqueles que detêm o monopólio do capital, das ferramentas, da terra, do conhecimento e da tecnologia que sustentam a sociedade de massas. Mesmo assim, tendemos a dar mais atenção às atividades mais prazerosas.

A divisão social do trabalho permite àqueles que possuem maiores recursos relegar a maior parte do trabalho sujo a outras pessoas que a realizam em troca de um salário ou alguma outra recompensa. Quanto maiores os recursos financeiros, maior a capacidade de relegar a outros as atividades necessárias, porém não tão prazerosas. É uma maneira de "refinar" a vida, extraindo dela apenas o suprassumo do prazer, como se o resto não existisse – exatamente como fazemos com a sacarose da cana-de-açúcar.

Essa prática é embasada em uma maneira de ver o mundo entranhada em nossos hábitos. Aprendemos que é melhor lutar por um bom emprego, um alto salário, para que possamos pagar àqueles que pertencem a uma classe social inferior para que sujem as mãos por nós enquanto desfrutamos do "melhor" que a "vida" tem para oferecer. Todos os garçons, cozinheiras, porteiros, faxineiras, vigilantes, entregadores, secretárias e motoristas sabem do que estou falando.

Não é de se estranhar que quando uma catástrofe natural ou uma guerra colocam uma grande população à mercê dela mesma da noite para o dia, sem estado e infraestruturas básicas (abrigo, alimento, saúde e higiene), ela seja acometida por diversas outras tragédias. Como vimos nos recente exemplos em Nova Orleans, no Haiti, no Iraque, grupos se organizam para saquear, a violência se torna incontrolável, doenças se espalham, pessoas morrem por falta de serviços médicos, de saneamento e de comida. Elas não apenas não estão preparadas para viver sem a administração estatal, sem hierarquias, como também não conseguem lidar sozinhas com a manutenção de suas necessidades básicas, pois as estruturas físicas e sociais da divisão do trabalho simplesmente evaporaram sem ninguém ter ensinado como obter tudo aquilo de outra maneira que não pagando para que outros cuidem disso para elas.


Catharina Disangelista



Trecho do livro "SELVAGE - Da anarquia à selvageria".

Coletivo Você Tem Que Desistir - 2010

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Faça com que este reino caia!






















"Que todos os reis se afoguem no sangue de suas conquistas
E todas as bandeiras morram nos topos de seus mastros
Que todos os glutões sejam empalhados nas costelas dos famintos
E todos os padres vendam suas almas
Que todos os sonhadores acordem em um mundo que é vazio
Que os amantes traiam e sejam traídos
Que os poetas se engasguem com suas próprias doces mentiras
E todos se curvem perante seus destinos
Que todos os que buscam vaguem perdidos através dos vales e desertos
E se deitem para dormir sobre pedras
Que os doentes floresçam
E os saudáveis sofram
Que os ratos lutem pelos ossos
Que o ódio domine impiedosamente um mundo dos condenados onde os rios cessem de correr
Deixe que o Sol se ponha para sempre no quebrado coração dessa Terra"*
Faça com que este Reino caia!


* trecho extraído da música "The Witch's Heart" do álbum "passion" da banda catharsis

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Ações pela Libertação Animal e da Terra pelo mundo!





[México] Ataque incendiário contra museu de caça Albarran em Guadalajara

Comunicado:

Na escuridão da noite de 8 de outubro, a nossa célula penetrou em uma das colônias mais luxuoso da nossa cidade onde se encontra um lugar que expõem cadáveres de animais como troféus, assassinados por um dos homens mais ricos de Guadalajara que pensa que pode abusar dos animais sem receber um merecido revide, e assim foi. Mais de 11 litros de gasolina arderam na fachada do lugar, e ainda deixamos uma mensagem: "respeite a vida selvagem animal e da terra - FLA". E escapulimos na escuridão como sombras.

Queremos esclarecer à imprensa e à polícia que o nosso grupo não é apenas um bando de "jovens" sem qualquer fundamento ideológico, nossos fundamentos se baseiam na liberdade e respeito por todos os seres que existem, por isso lutamos para abolir o antropocentrismo, culpado pelo assassinato da terra e pela dominação dos animais; ressaltamos que nossos ataques seguirão, e nossas ações serão cada vez mais eficazes.

Frente de Libertação Animal (Animal Liberation Front, ALF)

[Suécia] Visons liberados em Eksjo

A mídia informou que cerca de 1.000 visons foram liberados de suas gaiolas em uma fazenda em Eksjo, em 5 de outubro.

Tubulações de água e equipamentos agrícolas da fazenda também foram destruídos. Esta é a quarta vez que a fazenda é alvo de uma ação liberacionista, a mais recente foi levada a cabo em abril último.

O agricultor já anunciou que irá fechar a fazenda.

[Dinamarca] Mais de 10 mil visons liberados

A mídia dinamarquesa informou que mais de 10000 visons foram libertados das gaiolas de duas grandes fazendas de peles nesta semana. Durante a noite de 6 de outubro 6000 visons foram libertados de uma fazenda perto de Søndervig após as gaiolas serem abertas e os portões da propriedade destruídos. Em seguida, na madrugada do dia 9 de outubro, 5000 visões foram liberados de suas gaiolas em uma fazenda na cidade de Fousing.

[Reino Unido] Sabotagem contra carros de um circo

No norte de Londres, vários veículos do Zippos Circus foram arranhados e suas portas sabotadas (coladas) na noite de 4 de outubro, em nome da Frente de Libertação Animal (Animal Liberation Front, ALF). “Os animais não são propriedade do circo e pessoas compassivas não deixarão de realizar essas ações até que se acabe a escravidão.“

[Reino Unido] Peixe resgatado de um parque

Na sexta-feira, 3 de outubro, um peixe foi liberado de um stand de um parque de diversões onde estava a ser usado como um prêmio. Lá muitos peixes são tratados como brinquedos, em vez de indivíduos vivos, e estão todos em pequenos sacos de plástico, onde apenas conseguem dar uma volta ao seu redor. Depois de várias tentativas para matá-lo pelo pessoal do stand, o peixe foi alcançado e levado para uma casa onde ele está atualmente à espera de ser enviado para um lugar melhor.

Até que todos sejam livres!

[Itália] Visons são libertados em Castel di Sangro

130 visons foram liberados de uma pequena fazenda em Castel di Sangro, de propriedade de Raffaele D'Amico. Segundo a imprensa local, todas as gaiolas foram abertas, todos os cartões de reprodução (de identificação) foram destruídos e a sala de extermínio foi incendiada. Essa fazenda já tinha sido alvo do ataque da Frente de Libertação Animal (Animal Liberation Front, ALF) em 2003, e o agricultor está atualmente a ser julgado por agressão contra os ativistas da PETA (People for the Ethical Treatment of Animals - Pessoas pelo Tratamento Ético aos Animais) que organizaram uma manifestação junto com uma equipe de TV no interior da fazenda há alguns anos atrás.

[México] Sabotagem contra torre de telefone celular

Comunicado:

Na noite de 4 de outubro nós nos dirigimos para o matagal próximo do viaduto Atizapana, sobre a rodovia México-Toluca, no Estado do México; para sabotar uma das muitas propriedades da empresa destruidora Telmex, se tratava de uma grande torre de telefone celular que estava protegida por uma cerca de metal. O impacto ambiental de implantar uma torre como esta sobre a terra é indiscutivelmente prejudicial, uma vez que para introduzi-la sobre a natureza teve que ser cortado diferentes árvores onde viviam diversas espécies, contribuindo assim para que muitas das ondas magnéticas que emitem essas torres deixem a terra árida e seca.

Ao analisar esses efeitos e outras coisas, concluímos que a sabotagem contra este maquinário destruídor dos ecossistemas e que expande a civilização deve ser agora! Nós não vamos permitir que empresas como a Telmex continue com o seu luxo de andar transformando a terra em uma mercadoria para lucrar sem receber uma resposta vigorosa dos e das eco-radicais.

É por isso que nós montamos um dispositivo incendiário, com seis litros de gasolina; temos penetrado nesta propriedade “privada” destruindo suas cercas e pusemos tal dispositivo no alto dos cabos que conduziam os sinais telefonia. Como era esperado nosso presente funcionou bem, e o fogo destruiu completamente os cabos, além das caixas centrais que estavam abaixo da torre explodiram deixando a torre do nojento Carlos Slim inutilizada, causando prejuízos de milhares de pesos.

Frente de Libertação da Terra (Earth Liberation Front, ELF)

[Rússia] Ataque incendiário contra máquinas em Moscou

Comunicado:

Chegou a hora de dizermos: "Chega!"

Esta noite de 2 de outubro, proclamamo-la como o início da nossa luta, a luta da Frente de Libertação da Terra (Earth Liberation Front, ELF). Luta contra aqueles que, apesar dos protestos populares, destroem impiedosamente a Natureza para sacar as suas vantagens monetárias.

Desta vez, pagaram por seus atos, queimamos um trator e uma retroescavadeira que cavava uma trincheira ao longo da floresta Butovskiy para colocar uma tubulação de água quente para o edifício do Serviço de Inteligência. Com esse plano eles pretendem cortar 135 árvores e 268 arbustos. O Serviço de Inteligência quer exterminar a floresta, fato que vai piorar a situação ecológica no sul de Moscou.

Não ouviram (não queriam ouvir) a voz do povo, por isso nessa noite de 2 de outubro iluminamos o nosso caminho de casa queimando suas máquinas.

Queremos que este atuar seja um estímulo para mais ações audazes, contra aqueles que estão matando a terra.

Quando não ajuda a força da palavra, ajuda a força do fogo.

Madrugada de 3 de outubro...

Frente de Libertação da Terra (Earth Liberation Front, ELF)

agência de notícias anarquistas-ana

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Sociedade Morta-viva

O que significa ser “humano”, ou o que significa “ser humano”? Esta questão tem se tornado cada vez mais importante ao observamos um mundo moderno que parece “hostil ao homem” ou “desumano”. Existe uma grande indisposição de refletir sobre esta questão, pois a definição do conceito de humano recai sobre a questão do sentido da vida humana, o que é uma questão “metafísica demais” para o homem moderno. Este se acostuma a encontrar seu sentido na falta de sentido, e em nada mais. O sentido humano inclui a pergunta pela “função” humana, não no sentido funcionalista, mas no sentido da pergunta milenar “porque estamos aqui”, ou “qual o nosso papel na existência”?

Ao tentar definir nossa humanidade, os filósofos recorreram a uma série de aspectos do homem, desde a racionalidade até sua composição genética. Mas a pergunta pelo papel do homem não envolve apenas uma característica interna do homem. Envolve a etologia humana, ou seja, o comportamento humano, incluindo aí a cultura, as crenças e a ética. Hoje em dia, o significado da pergunta “o que você faz?” ou “qual a sua função?” é entendida como “qual é seu trabalho/emprego”. A pergunta sobre o que fazemos relaciona-se com a pergunta sobre qual o nosso papel, o que acaba determinando nossa auto-imagem, quer dizer, nosso conceito sobre quem somos. A pergunta “quem você pensa que é?” remete ao status social, o que por sua vez remete a uma profissão. Não raro, o primeiro dado biográfico que procuramos sobre as pessoas, logo depois do nome, é a profissão, a ocupação, o cargo, o lugar que esta pessoa ocupa não apenas na sociedade, mas na sociedade do trabalho. As roupas que vestimos e o modo como nos portamos reflete nossa posição nessa sociedade.

Num mundo que provoca tanto o trauma quanto o vício pelo trabalho, os eventos que ocorrem no local de trabalho ou os pensamentos decorrentes da atividade do trabalho têm sido os temas mais comuns nas conversas informais, mesmo nas conversas entre familiares, entre casais, entre amigos ou entre estranhos. O trabalho, e tudo que ele suscita, tem invadido gradualmente todo nosso tempo, nossa vida, nossa mente e todas as nossas disposições de ação. O comportamento no trabalho tem se tornado mais “condicionante” para o indivíduo do que sua convivência em qualquer outro espaço social. De fato, a tendência “alienante” do trabalho repetitivo, comum na era industrial, foi substituída por uma etologia que leva “a vida para o trabalho” e “o trabalho para vida”, em todos os seus aspectos. Até mesmo o aspecto lúdico, antes dissociado do trabalho, agora pode ser confundido com este, quando se torna mais comum ouvir a frase: “Isto não é brincadeira, é meu trabalho, mas eu me divirto muito com ele”. Assim, a etologia humana está cada vez mais, centrada na sociedade do trabalho, confundindo-se com a etologia do trabalho. Não apenas do trabalho humano, mas do trabalho “civilizado”, isto é, com vias para o progresso de uma sociedade tecnocrática, que muda numa velocidade espantosa, a ponto de não conseguirmos mais dar qualquer adjetivo a ela, pois os adjetivos se tornam rapidamente obsoletos. A mudança de forma desta sociedade está se acelerando a ponto de não podermos mais dar um diagnóstico preciso sobre sua situação.

O “ethos” exigido no local de trabalho, assimilado como “lição de vida” pelos “discursos motivacionais”, tem se tornado um “estilo de vida”, algo que se torna base para o comportamento em todos os outros aspectos da vida, como o relacionamento íntimo, o consumo, a postura ética, o posicionamento político, até mesmo a crença religiosa. A carreira enquanto estilo de vida se torna um fetiche: o indivíduo procura consumir qualquer coisa que esteja relacionado ao seu trabalho, como objetos de decoração que simbolizam sua formação. O olhar cotidiano se torna um “olhar médico”, um “olhar jurídico”, um “olhar filosófico”, e assim por diante. Tudo gira em torno da profissão. O indivíduo tem centralizado vida no trabalho mais do que em qualquer outra de suas capacidades humanas. Em outras palavras, a função artificial, criada para suprir uma sociedade de acúmulo, está substituindo nossa “função humana”, aquela responsabilidade que tínhamos no passado. Nestes termos, a sociedade do trabalho criou uma nova função para o homem, destituindo-o dos deveres que ele tinha antes e substituindo uma ética baseada na relação do homem com o sagrado por uma ética baseada na produção e no consumo.

Esta “função humana original” se assemelha à etologia dos animais não domesticados (ou selvagens), pois eles não vivem no acúmulo de poder, vivem na dádiva da vida. Esta vida “na graça” foi deixada de lado como algo aprisionador, pobre e primitivo. A questão que se coloca é então uma oposição entre trabalho, que é nossa função social nesta estrutura mercadológica, e nossa função humana, que é nossa função no e para o meio em que o humano estava originalmente inserido, no e para o qual ele surgiu. As duas funções não se confundem quando analisamos a humanidade no seu sentido mais amplo. Percebemos a substituição gradativa da função humana pela função do trabalho.

É nesse contexto que se insere a metáfora de uma sociedade de mortos-vivos, que representam seres com aparência superficial de estarem vivos e realizarem funções, porém sem qualquer conteúdo ou sentido para essas funções. Não apenas “somos para morte”, mas nossa função humana perdeu seu valor intrínseco, reduzindo-se a uma função que objetiva apenas a reprodução de comportamentos voltados ao trabalho. Mesmo o que não é chamado de trabalho, como o entretenimento e a arte, existem em função do trabalho, e seguem também a estrutura do trabalho, uma vez que esta assimila todas as atividades humanas e as classifica de acordo com um cálculo de eficiência. Perguntamos-nos o que “compensa” mais, ir ao teatro ou ao cinema, em termos de uma “eficiência de diversão”. Atividades reflexivas, que não nos distraiam o suficiente ou não ocupem ao máximo nossa atenção, são consideradas pouco divertidas. Ver um filme, por exemplo, é preferível a ler um livro, porque as múltiplas imagens fluindo constantemente fixam nossa atenção na multiplicidade de informações, deixando pouco espaço para refletir sobre a mensagem.

Um morto-vivo caracteriza-se por aquele ser que está destituído de sua função enquanto ser vivo, mas que ainda mantém uma função com fim em si mesma, caracterizada por um movimento programado, típico de um autômato ou de um objeto animado por mecanismos invisíveis. Seu “princípio de ação” é controlado por forças estranhas à vida, como um desejo insaciável de destruir/consumir vida pulsante, o que significa consumir aquilo do qual tem carência. Na literatura, mortos-vivos podem ser inteligentes, sedutores e refinados como os vampiros. Podem ter uma aparência atraente, ainda que por meio de um encantamento. Podem mudar de forma, e são imunes a ferimentos. Os mortos-vivos estão à caça dos vivos. Também apresentam a característica de infectar o outro com sua doença ou maldição, espalhando-a como um vírus. Os mortos-vivos andam à noite porque se escondem dos vivos. A vulnerabilidade ao espelho revela que eles também se escondem de si mesmos. São insensíveis e frios.

A perda das funções humanas leva a uma busca constante por algo que parece impossível de ser alcançado, pela reprodução de uma rotina sem sentido e sem finalidade. Isto é o que acomete todos os membros de uma sociedade morta-viva, gerando medo, raiva, desespero. A morte-vida, diferente da morte, se espalha dominando as mentes e os corpos, num movimento de expansão de influência e poder por via do engano e da violência. A morte fecha o ciclo da vida, mas a morte-vida impede o fechamento do ciclo da vida, criando um ciclo infindável dentro do ciclo vital, como uma referência circular ou um “loop infinito”. Ela nos desliga de nosso propósito como seres humanos e nos leva para uma espiral descendente de acúmulo e expansão de poder, seja pela brutalidade ou pela astúcia.

Não é por coincidência que alguns autores relacionaram os morto-vivos à maldição de Caim, o primeiro agricultor, primeiro assassino e também fundador da primeira cidade. Caim foi condenado a vagar pela terra sem rumo definido e recebeu uma marca que o impede de ser morto, porém todo seu trabalho resulta em cinzas. Ele é por definição o homem destituído de seu papel humano, condenado a caminhar para o vazio, numa existência sem sentido intrínseco.

Caim, que arou seu campo com o sangue de seu irmão, é o primeiro a acumular. Em hebraico, Caim significa “homem de posses”. Ele, que foi herdeiro da condenação ao trabalho pelo pecado da cobiça, agora também se torna fundador de uma nova maldição: a inveja que leva à destruição da vida em função do trabalho.

Nós elegemos o trabalho como fonte não apenas de sustento, mas de sentido existencial. Mesmo quando tentamos fugir do trabalho em atividades artísticas, estas só podem prover sustento porque outra pessoa trabalha para adquiri-las. A arte também pode ser mais procurada quanto menor o sentido de nossas existências, uma vez que ela provém um momento de sentido aparente. Mas a função humana não pode ser resgatada pela atividade artística. O sentido existencial não pode ser substituído pelo sentido estético.

Os membros da sociedade morta-viva são como insetos batendo numa lâmpada que eles pensam ser o sol. Contínua, furiosa e entorpecidamente, concentrando todo seu ser nesse fluxo aparentemente vital, porém originado do auto-engano. Caminhando na mentira que conduz à escuridão da morte do sentido.

Todos os aspectos do trabalho moderno, incluindo a programação de comportamentos pelo cálculo de produtividade, se tornam aspectos da vida moderna. Estes conduzem continuamente o indivíduo ao automatismo e ao artificialismo. E ao mesmo tempo ao prazer, à tentativa de aproveitar ao máximo as experiências agradáveis, ao consumo insaciável de “vida”. Mas a vida transformada em produto também se torna parte de um processo “sem sentido” quando o consumo acaba. Ou seja, este processo é a transformação de tudo que é vida em morte-vida. Luz em escuridão. E quando as luzes se apagam, é cada um por si, não há mais referência comum. Somos nosso único ponto de referência num universo restrito ao eu, onde o outro é uma ameaça, e não faz sentido falar sobre de onde viemos e para onde vamos.


Janos Biro
Goiânia, 01/09/09



Texto extraído do blog Uma Nova Cultura:
http://www.umanovacultura.blogspot.com/

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Juventude Inconformada - Publicação Anarquista

























Publicação anarquista com 8 páginas cheia de textos!

Se quiser receber o zine impresso só entrar em contato através do e-mail:

kaosedanos@hotmail.com ou pequenaameaca@gmail.com

Download do zine:

http://www.4shared.com/file/122722511/b33fca68/zine_-ji-_pdf.html

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

[Peru] Pronunciamento libertário sobre os acontecimentos na Amazônia





















Pretendem que a gente viva uma farsa. O poder opressor (Capital, Estado etc.) não somente utiliza da violência física para nos controlar, mas também cria uma jaula invisível chamada “normalidade” para se apoderar do pensamento e das aspirações dos dominados, impedindo-os de ver a possibilidade de sua própria libertação. Quem desobedecer será sancionado socialmente como sonhador ou subversivo. Os meios de comunicação também são armas: disparam cortinas de fumaça para desviar a nossa atenção, e assim esquecemos as injustiças cotidianas. A imprensa maquia os fatos, os transforma em mercadoria, banaliza a morte. Por isso, enquanto as pessoas eram assassinadas em Bagua, rapidamente o sistema tratou, em primeiro plano, de fazer um teatro, exaltando novas glórias esportivas, com manchetes repletas de fervor patriótico: o vermelho da bandeira peruana se sobrepondo ao vermelho do sangue dos mortos no conflito ainda não resolvido na Amazônia.

O regime pretende ocultar que ainda existem centenas de desaparecidos, dezenas de presos, famílias desconsoladas, comunidades incompletas, pois, no ataque policial, muitos daqueles que fugiram ainda não voltaram. As arbitrariedades nas prisões são as coisas mais comuns. Pretendem provocar a desmoralização das pessoas para acabar com anos de luta e organização, mas, apesar da repressão, os povos amazônicos seguem dispostos a lutar.

Não, não defendemos a soberania nacional, se isto significa propriedade do Estado e domínio de sua burguesia local. Somos partidários da administração direta das comunidades, de sua capacidade de autogestão. Somos contra o desenvolvimento cego e a indústria depredadora, é o momento de formular formas radicalmente distintas de convivência, sem exploração do homem e da natureza. Não atacamos a empresa transnacional por ser estrangeira, mas sim por ser exploradora, capitalista. A luta amazônica não foi provocada pelo chavismo ou outros supostos agitadores. Estas são mentiras do governo que quer encontrar falsos culpados e negar a capacidade das comunidades de atuarem por si mesmas. Defendemos a autonomia dos povos e desejamos espaços livres de contaminação não somente no Peru, mas em todo o mundo. Este conflito não é uma guerra de “Estados imperialistas” contra suas Neo-colônias, o Capital usa qualquer bandeira (o inimigo também se veste de vermelho e branco) por isso compreendemos que, para nos liberar, é inútil falar de “pátria”.

Não se trata de manter espaços para o turismo ou de uma saudade cafona do bom selvagem. As comunidades indígenas possuem seus próprios conflitos. Não idealizamos, simplesmente somos solidários contra o inimigo comum. O poder opressor tem atacado sem dó, tem matado, continua matando e pretende que a gente olhe para outro lado para que possa prosseguir impunemente. Esta luta é a luta de todos, e se hoje são os indígenas amazônicos, amanhã pode ser qualquer um o “desaparecido”, pois o Estado e o Capital são o mundo da não-troca, da homogeneidade repressiva que cospe em nós se tivermos a ousadia de questioná-los. Para este mundo, somente existimos como objetos, como mercadoria, somos descartáveis.

Lutemos. Vamos opor a essa normalidade homogeneizante a nossa diversidade crítica. Sejamos a negação dessa farsa. Como dizem os zapatistas no México: Se neste mundo não cabemos, então outro mundo terá que ser feito.

Anarquistas em Lima

Sábado,15 de agosto de 2009.

Tradução > Marcelo Yokoi

agência de notícias anarquistas-ana

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Pequena Ameaça # 3 - Publicação Aperiódica Anarquista
























Publicação com 20 páginas contendo Textos, Poemas, Entrevistas, Resenhas, Propagandas Conspiratórias... etc!


Download do Zine:
http://www.4shared.com/get/122724091/5846dd57/pequena_ameaa_-_3_-_PDF.html


obs.: se quiser receber pelo correio é só entrar em contato pelo e-mail: pequenaameaca@gmail.com