quarta-feira, 3 de março de 2010

Algumas Ações Diretas Mundo Afora Pela Libertação Animal Em Janeiro De 2010.


Dia 1. Itália: Ataque incendiário ao restaurante Roadhouse Grill (pertencente ao grupo Cremonini), em Reggio Emilia. Foram 8 litros de gasolina e 5 bombas de gás na instalação elétrica e na cozinha. Ação dedicada a Nicu, Robbi, Andrea e a Brigada Garibaldi Antifascista, e reivindicada pela ELF (Frente de Libertação da Terra).

Dia 1. Reino Unido: 100 galinhas liberadas de um sistema de baterias de gaiolas na passagem do ano.

Dia 1. Croácia: No centro de Zagreb, vitrines de três lojas de casaco de pele foram pichadas com a palavra “Assassinos”. É a primeira vez que lojas de casaco de peles são pichadas na Croácia.

Dia 2. França: Em Paris paralelepípedos foram lançados contra a vitrine de uma peleteria, os muros foram pichados e as fechaduras travadas.

Dia 5. Alemanha: Incendiado o carro do vice-presidente da Fortress (empresa que financia o laboratório de experimentação animal HLS, um dos maiores do mundo), em Kettwig.

Dia 5. Itália: Em Cermenate três cabras são libertadas. “Foi uma agonia separar os três filhos de suas mães, mas teria sido pior deixá-los chegar a um final horrível”.

Dia 6. Itália: Um centro de caça de codornas foi atacado em Vedocchio (Milão). O mesmo centro foi atacado no verão. As janelas foram quebradas e duas garrafas cheias de tinta vermelha foram jogadas no interior do local.

Dia 10. Itália: Quebram os vidros, furam os pneus e picham um caminhão de carne e um furgão utilizado para transportar leite e queijo em Roma.

Dia 13. Suécia: Em Lund, loja de casaco de peles (Scandinavian Sportsman) teve seus vidros quebrados e seu muro pichado.

Dia 14. Chile: As janelas do restaurante “Parrilladas Argentinas” são quebradas, a fachada é pichada e manchada com bombas de tinta vermelha. No caminho uma imobiliária teve também suas janelas quebradas. “Com estes atos saudamos os companheiros Abraham López e Fermín Gómez, enjaulados pelo Estado mexicano, e a Matías Castro, enjaulado pelo Estado chileno. Força companheiros, daqui nos irmanamos com suas idéias e prática, multiplicando as ações. FLA/FLT (Frente de Libertação Animal/Frente de Libertação da Terra)”.

Dia 16. México: Abraham López Martínez, de 16 anos, entra como preso preventivo em um centro de menores a espera de um juízo. Ele é acusado de danos e associação criminal, relacionados com o incêndio de nove carros e um ataque com bomba a uma concessionária da Harley Davidson, reivindicados pela FLT (Frente de Libertação da Terra). Você pode mandar uma mensagem para o Abraham através da Cruz Negra Anarquista do México: cna.mex@gmail.com

Dia 17. Itália: Liberado um cachorro de um criadouro, em Lodi.

Dia 17. México: Coca-Cola atacada pela FLA/FLT (Frente de Libertação Animal/Frente de Libertação da Terra). “Desta vez colocamos duas cargas de dinamites nas janelas dianteiras das oficinas de troca e compra-e-venda da engarrafadora Femsa, propriedade da asquerosa multinacional Coca-Cola, as quais ficaram completamente destruídas pela explosão. O atentado foi feito no município de Ecatepec no Estado do México”. (...) “Esta ação foi dedicada, com todas nossas ânsias de liberdade, aos presos Víctor, Emmanuel, Abraham, Fermín e Socorro de Tijuana. Que a solidariedade direta se multiplique em cada ação clandestina, por sua liberação incondicional. FLA/FLT”.

Dia 18. Uruguai: 8 pombas liberadas de um mini-zoológico localizado no balneário turístico.

Dia 18. Reino Unido: Lewis Pogson é sentenciado a três anos de prisão por ser declarado culpado da libertação de 129 coelhos da granja Highgate, em janeiro de 2008. Você pode escrever para ele no seguinte endereço:

Lewis Pogson #A6454AK

HMP Lincoln

106 Greetwell Road

Lincoln LN2 4BD

Reino Unido


Dia 18. Irlanda: Um KFC é atacado. Dois tijolos foram lançados contra as janelas e as portas foram quebradas aos chutes.

Dia 20. Itália: Bombas de fumaça numa loja da Max Mara, em Nápoles. Estilhaçam os vidros e lançam bombas de fumaça que estragam o material da loja. Deixam uma nota explicando os motivos da ação. Na mesma noite atacam outra loja da mesma forma e incendeiam dois caixas automáticos.

Dia 22. Uruguai: liberam 22 papagaios comuns de um criador de aves. Não restou nem um nas jaulas.

Dia indeterminado. Espanha: Em plena época de Natal, o diário El País recebia uma chamada anônima. Nela se informava sobre a contaminação (com água sanitária e pequenos pedaços de vidro) e a disposição de várias garrafas do produto “Head and Shoulders” da companhia Protect e Gambler em vários supermercados e grandes armazéns da comunidade de Madri. Na chamada, se insistiu que sabotagens como esta continuariam sendo realizadas enquanto a companhia não abandonasse as experiências em animais.

Dia indeterminado. Estados Unidos: Atacam com bombas de ácido os vidros de um McDonalds, em Utah.

Dia indeterminado. Itália: Vidros do carro de um caçador foram quebrados enquanto este estava caçando, em Tivoli.

Dia indeterminado. Estados Unidos: Travada as fechaduras de uma firma de carruagens de cavalos, em Salt Lake City.

Dia indeterminado. México: Destroçam os vidros de uma loja de “venda de filhotes”, em Guadalajara.

Fonte: Bite Back

Tradução > Marcelo Yokoi

agência de notícias anarquistas-ana

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Entrevista - Trancarua

O coletivo pequena ameaça entrevista a banda Trancarua - os velhos Anarco-Punx do extremo leste de São Paulo. A banda é Hildebrando (voz); Edson (bateria); Fernando (voz bonita e baixo); Daniel (guitarra) e Fabio (guitarra).

pequena ameaça - Gostaríamos que vocês explicassem o que é o Trancarua.

Hildebrando - A gente acabou pegando esse nome por uma questão ética, musical, cultural em relação ao brasil, a essa mistura de culturas populares... a questão da afrodescendência... A gente achou interessante colocar porque dá também aquela idéia de trancar a rua, fechar a rua e é o que falta as vezes em alguns momentos. Só o PCC conseguiu fazer isso, infelizmente. Mas a gente acabou achando esse nome, discutindo esse nome... eu, o Fabio véio loco e o Edson...

Fabio
- Na verdade, o princípio do nome, a idéia de início foi exatamente esta, de que o nome tivesse uma sonoridade forte, já que o som da banda não é tão forte, pelo menos o nome teria que ser um pouco forte (risos). A idéia inicial foi esta, de um nome que tivesse um significado de protesto, de trancar a rua e essas coisas todas. Lógico que essa ligação com questões africanas, religiosas - a religiosidade africana e cultural - veio na sequência e ia ficar até um pouco difícil se desligar disso por causa do nome - trancar a rua, o exú e tal. Mas a essência do nome é exatamente essa, tanto que é até escrito tudo junto, trancarua. Porque se escrever separado já muda um pouco o contexto que é o exú. Nós todos somos ateus, então não ia ter nem o porquê de colocar um nome que estivesse ligado a alguma religiosidade de qualquer cultura. Mas foi uma certa inerência, tem uma certa inerência essa história de áfrica, de religiosidade cultural... já que essa coisa veio junto, a gente reforça também essa questão de racismo, de respeito a culturas diferentes, mas a essência real do nome é a ligação com barricadas, com protestos e essas histórias todas...
pequena ameaça - Vocês tem alguma demo lançada, algum cd, alguma coisa...

Fabio - A gente tem duas... tem uma que está com a formação original, a melhor de todas... (risos)

Fernando - é, a melhor...

Fabio - então, tem uma demo que a gente gravou em 2005 em Mogi, com um vocalista só que erao Hildebrando, depois entrou o Josino ficando com dois vocais, Leandro no baixo, eu na guitarra e o Edson na bateria. No ano passado, 2008, a
gente gravou outra demo com Daniel no baixo. E agora tem outra formação com duas guitarras, a gente resolveu colocar duas guitarras para suprir a minha deficiência "guitarrística", chamando o Daniel pra tocar guitarra e o Fernado no baixo pra ver se melhorava um pouco. Parece que ficou melhor, eu gostei...

Hildebrando - Os caras (Fernando e Daniel) gostaram, porque é uma oportunidade deles aparecerem : "porra a banda de vocês é foda, vocês são maiores intelectuais, a gente pode andar com vocês?" (risos). A banda tem um físico, um historiador, um artista plástico, e o Fabio é alto de data, o que é mais importante... não precisa entrar numa universidade.

Fabio - Marginal...

Hildebrando - ...é, marginal... seja marginal, seja herói.

pequena ameaça - Tem uma música de vocês chamada "Romão Gomes". Expliquem quem é "Romão Gomes".

Hildebrando - Romão Gomes é um presídio onde fica os individuos que fazem a segurança do Estado. Historicamente quando você tem a formação da força pública em São Paulo você logo de cara já cria um espaço para esses individuos, para eles virem de uma forma mais organizada. Então, Romão Gomes é um presídio onde fica os individuos que matam em nome da Lei, em nome do Estado. E lá eles tem uma facilidde de viver porque é um lugar bem adequado pelo que eu tenho de informação, é um presídio bem adeaquado, eles tem acesso a um monte de coisas, tem telefone, tem internet...

Fabio - É um presidio para policial...

Hildebrando - ... saiu uma reportagem num jornal, que eu não cito aqui, que eles tem uma vida legal, bem organizadinha...

Fabio - Tem alguns que quando vencem a estadia deles lá, não querem voltar pra rua, querem continuar lá. E quando voltam pra rua continuam com a mesma paranóia, com a mesma relação de poder que é a única hora que pode se sentirem superior a alguém, continuam com o mesmo mecanismo, mesmo ciclo vicioso.

Hildebrando - Por que Romão Gomes? Porque não dá pra gente chegar e falar "fodasse a policia". Então, colocamos Romão Gomes e a música fala da violência policial que agente sofreu, que agente sofre ainda. A classe trabalhoradora de um modo geral sofre violência policial. Não há como conciliar a força policial com a liberdade e com aquilo que eles chamam de cidadania.

pequena ameaça - O que significa Punk/Hardcore pra vocês? Essa contracultura ainda representa algum perigo à ordem dominante? Falem um pouco sobre isso!


Hildebrando - A ordem dominante ela permeia tudo hoje até o meio Hardcore. Na verdade, a gente começou a entrar nessa contracultura, que é a contracultura Punk, e a contracultura hoje, essa palavra virou um monte de coisa que tem fora, coisas oficiais que acabaram virando contracultura.

Edson - Contracultura é um vocabulário burguês, e é complicado você começar a usar isso porque se não você está fazendo, misturando o que os caras fazem com o que você faz. Como você está falando do cenário e falar do cenário é complicado, aliás, cenário com fundo político é complicado. Não sei se isso já existiu mas pelo menos pra gente aqui, nós sempre tivemos bandas, fomos militantes... hoje não, nós estamos ficando velhos e a vida vai tomando outros rumos... eu não vejo acontecer com quem está chegando... você conversa com a mulecada por aí eles não não tem referência nenhuma musical a única referência é o que está na mídia... só o que está na mídia mesmo...

Hildebrando - Sem falar a questão também que você vai hoje num som e você não consegue conversar com essa garotada sobre questões pontuais. Tem a letra, tem a postura, tem o visual mas - não que tenha havido antes, a gente não tem essa de olhar pra trás e "na minha época era legal" - há individuos que estão no meio Punk/Hardcore que tem uma ansia por transformação, sempre houve, individuos que estão ali pelo espaço de diversão, de socialização, de aceitação. No meio Punk/Hardcore tem muito maluco que é doidão, você pega o final dos anos 70 em São Paulo, por exemplo, o Punk era marginal, era bandido... você pega "SP Punk", pega "Punk do Subúrbio"... essas gangues que tinha no final dos anos 70 e começo dos anos 80 - e que hoje estão voltando infelizmente - e acaba virando isso. É a mesma coisa você olhar os grupos que estão se "degladiando" nos morros do Rio de Janeiro para tomar o poder. Na verdade está todo mundo na mesma merda mas cada um quer um espaço. E fazer essa alusão com o crime "organizado" é porque você tem hoje de novo essa coisa "a gente é de tal gangue, é isso e aquilo e aquilo" e depois se encontra e fica batendo um no outro e enquando isso o "Sistema" que é o real perigo pra todos está aí, continua intacto. E em vez de você combater a ordem policial, você usa aguardo policial porque vai acabar juridicialmente prejudicado pela agressão a outro punk ou a outro não sei lá o que. E a gente hoje, e o Edson falou essa coisa de ficar velho, não dá pra hoje chegar e falar somos punks. A gente é uma banda que toca um tipo de música que se encaixa no Movimento Punk. Não é "somos punks". Não dá chegar e falar "sou punk" ou "deixo de ser punk". A gente tem uma linha de reflexão que está dentro dessa cultura Punk. É muito importante a coisa que a gente tem, 20 quase 25 anos no meio disso, supriu muita coisa pra mim, para o Edson, para os meninos aqui... para o Fabio. O pessoal amadureceu muita coisa na cabeça, de ter uma perspectiva de fazer uma crítica política, de militar no sindicato e de repente dar algum apoio a algum Movimento Social, porque o Punk trouxe isso pra gente. É por isso que a gente fica meio fudido de ver uma cultura que trouxe pra gente um conhecimento, uma postura política e ver como está hoje. Você vai num evento e o cara vem perguntar se você "baixou tal música" se "aquela banda é mais pesada que essa", que "a gente é mais rápido que você". Eu acho que isso não é a discussão, tocar rápido ou não tocar rápido não vai agredir ninguém.

Edson - Eu queria colocar uma coisa no que eu falei, não que todo o cara que vai tocar guitarra tem que ser revolucionário, não é essa a questão, a questão é a seguinte: o conhecimento político é importante pra você saber o que seria importante e o que não é. O que você ouviu. O que é subversivo e o que não é. Isso é uma questão de você saber essas escolhas...



Hildebrando
- Teve uma época que tinha shows, amizades, todo mundo era aquilo era isto, e a gente participou de uma ocupação em guarulhos do MTST, na época, e esse mesmo pessoal que era todo revolucionário e tal foram "obrigado" a entrar e a sentar num banheiro improvisado com um buraco no chão. Eles se horrorizaram com aquela situação, as menininhas da PUC e da USP "ah, não sei o que na revolução..." de repente viram que tinham que cagar num buraco, ficaram olhando e falaram "ah, não vou entrar aí..." é foda né! Imagina numa situação de transformação radical da sociedade, como é que vai ser? Esse pessoal vai continuar no lugar que está. É muito fácil falar "a revolução e não sei o que", "nossa banda é isso e aquilo", e numa ação política será que a gente vai pro pau mesmo, será que a gente apóia, será que a gente realmente está afim de estar junto? Porque hoje, eu já ouvi de muitos anarquistas - principalmente dos anarquistas que estão no "alto" da PUC - que falam que o povo é traidor. Não é que o povo é traidor, o povo é o povo, nós somos o povo. Não dá para pegar uma teoria política e fazer uma leitura pós-moderna, como eles dizem, e não dar para acreditar numa transformação. Transformação significa que você vai desalojar do seu lugar, que vai beber água suja, vai ter que cagar no chão, vai ter que sentir fedor... eu não sei também se esta transformação radical virá, mas a gente tem essa perspectiva e está aí pra isso. Tem que estar pronto para se um dia tiver vamos ter que se incerir e não tem como fugir. Vamos ter que largar nossos valores, as nossas guitarras vão ser roubadas e quebradas, os nossos amplificadores alguém vai dar uma voadora nele, vão por fogo e aí acabou o Rock... acabou o Punk... acabou a "revolta"... Aí sim, é a hora da verdadeira revolta... por enquanto...

Fabio - Até porque, numa transformação social, não vamos ter pra onde correr... se não for correr pra cima... agora, o pessoal que está em outros degraus, vão para o exterior, vão pra fora, vão ser exilados... e a gente não vai ter para onde correr...

Hildebrando - Não que a gente esteja falando "nossa os caras são maior esquema ultra radical, o clube do CRUJ"(risos), não é isso, nós temos essa perspectiva de uma transformação social, se ela vier, temos que estar preparados, talvez a gente morra e não veja isso, mas a gente anseia, desde que comecei a tomar os meus conhecimentos sobre o que é a sociedade, graças ao Punk. Por isso digo que o Punk é importante, e percebi que existe uma disparidade muito grande, vamos dizer aí, entre classes, que isso é poibido usar hoje e na pós modernidade não se fala em luta de classes. Nem os anarquista falam mais em luta de classes hoje também, falam em liberdade, em todo mundo andar pelado, um dormir com o outro... é legal mas e aí? É todo mundo dormir pelado e não fazer nada?

pequena ameaça - Todo punk naturalmente é anarquista mas nem todo anarquista é punk. Vocês se consideram anarquistas?! O que é anarquia pra vocês?!


Hildebrando
- Olha, hoje rotular da forma que é rotulada é complicado. Eu sou libertário. Eu assumo essa postura porque é o que me educou pra sociedade. Por exemplo, hoje eu trabalho com jovens de situação de risco, trabalho em escola pública e enquanto professor mantenho essa postura libertária de não oprimir, de tentar trabalhar com esses meninos de uma forma mais horizontalizada. Porque a educação é também uma via de entrar na escola. É legal você ter uma posição libertária e entrar num meio autoritario. O punk e o anarquismo deram pra gente essa posibilidade de entrar no meio autoritario que é a escola e dizer aquilo que a gente pensa... de tentar fazer uma transformação, pelo menos a minha. E a educação eu vejo como militância política.

Fabio - Você disse que todo punk é naturalmente anarquista? Eu acho que não. Eu tenho certeza que não. São coisas distintas mas que andam muito bem quando estão juntas. A mesma coisa é o caso do Hardcore que necessariamente não é uma música política mas é uma coisa que caminha muito bem junto. Eu particularmente sou anarquista. Eu acho que o anarquismo hoje não dá pra ser vivido como no século passado (séc. XX) e fim do século antepassado (séc. XIX). Não dá pra ter o mesmo romantismo. Não dá pra ser francês ou italiano como no começo do século passado aqui no brasil. Mas é uma coisa que eu consigo colocar no meu dia-a-dia com muitas pessoas com quem convivo, com quem eu vivo. É um meio onde consigo até me livrar de certas paranóias que veem em consequência do sistema capitalista (risos). Então, eu sou anarquista, lógico que não romântico. Não dá pra ser romântico. A gente tem que colocar o pé no chão e assumir que o anarquismo hoje não dá pra ser com em tempos atrás.

pequena ameaça - Qual a influência de vocês? O que vocês andam ouvindo, lendo, assistindo, vivendo, fazendo...?

Fabio - Eu ouço o bom e velho rock´n roll. Música barulhenta. De uns anos pra cá comecei a ouvir e conhecer o Jazz que acho que é umas das músicas mais revolucionárias estéticamente falando. O Jazz é mais anti-música do que o próprio Hardcore, até mais podre. É só dá uma olhada na história do Jazz. O musical e o social tem mutio haver com a história do Punk, como movimento político e musical. É uma música extremamente doida.

Hildebrando - Eu ouço coisas modernas, pós-rock, eu amo Joy Division - o cara mais poeta que existiu na música (o vocalista). Antes dele teve outros mais importantes...

Fabio - ... O nosso amigo Hildebrando é esquizofrênico por isso que ele se identifica...! (risos)

Hildebrando - ...ouço o velho e bom Crust, Hardcore dos anos 80 e algumas coisa novas também... músicas alternativas, Jazz também, Portishead, Ska, ouço muito Rap também. Acho que o Rap tem uma puta força. Hoje está meio apagadinho mas ele é uma música muito foda. Dependendo do trabalho ele é uma música extremamente transformadora, hoje nem tanto mas já foi uma música que teve muito mais aceitação da juventude da periferia. Porque o Rock é outra coisa. O Rock é de classe média, se você tocar Rock na quebrada, o Hardcore, a mulecada vai achar o maior barato: "porra os caras são maior louco, gritam pra caramba, pulam pra caramba" mas o que tem mais haver com a realidade da periferia é o Rap. No começo a gente tocava muito com o pessoal do Rap. Eu acredito muito mais neles do que essa mulecada de tatuagens de mil reais...(risos)
Fabio - super colorida...(risos)

Edson - É uma rapaziada que vive o drama mesmo, estão lá embaixo em contato com toda a merda...

Hildebrando - Toma tapa da polícia toda hora, mora na quebrada mesmo. Você tem os grupos da zona sul, por exemplo, no capão redondo tem uns muleques organizados pra caramba. Põem a mão na merda mesmo, e falam "se é pra mudar, então vamos sujar a mão na merda". O Hardcore é foda, no começo ele era "laranja mecânica" total e depois virou o que virou hoje.

Fabio - Quando a classe média absorveu o Hardcore e, teve uma pergunta que você fez antes que era se o Harcore poderia fazer alguma transformação na sociedade, há um tempo atrás ele incomodou bastante hoje já não incomoda mais, já foi absorvido e no caso do Rap está sendo a mesma coisa. E a classe média e a mais alta já estão começando a absorvê-lo, neutralizando-o e pasteurizando-o. Mais uma transformação social que a juventude desenvolveu que está começando a ser neutralizada. Mas o que incomoda um pouco ainda o sistema é o Rap.

pequena ameaça - Fora o Trancarua vocês tem algum projeto?

Fabio - Eu tenho um projeto onírico e solitário de fazer um som com elementos de Jazz e Funk dos anos 70, mas eu chamo um pra fazer comigo, chamo outro e ninguém quer tocar, inclusive você eu já chamei também e me deu um perdido. Então eu continuo no meu mundo onírico e solitário.

Fernando - Eu sou multi-instrumentista, sou prostituto da cena, toco baixo, ponho meu colete pra tocar e sou bonito...(risos).

Fabio - Esses dois aí (se referindo ao Fernado e Daniel) tocam no Discrepante. Aquela banda fudida formada por três irmãos que, inclusive é uma das minhas influências. Depois que eu conheci eu "paguei um pau, essa banda é foda". Mas comecei a conviver com eles e descobri que são um bando de caga-grosso (risos).


pequena ameaça - Pra acabar, falem alguma coisa... mandem alguém tomar no cu, mandem beijo pra alguém...

Hildebrando - Valeu você por desalojar lá do seu lugar pra vir aqui. É a primeira vez que a gente faz uma entrevista (risos). Se tivesse mais oportunidades de vincular informação pra essa mulecada e colocar no mundo as idéias que pensamos de uma forma alternativa que é essa forma que talvez você busque. Hoje você não tem mais aqueles zines de papel como antigamente tinha pra caramba - tem um pouco ainda, o Fabio faz, eu faço, você também faz. E agradecer a oportunidade. Longa vida a gente, quando eu falo a gente, falo dessa cena que é real, eu não sei se é real também. Mas que continue viva e que a gente envelheça com dignidade. Valeu mesmo. Arruma um som pra gente e já era. Fica quieto! (risos).

http://www.myspace.com/trancarua
www.myspace.com/trancaruawww.myspace.com/trancarua
www.myspace.com/trancarua www.myspace.com/trancarua


Obs.:
esta entrevista foi realizada em meados de 2009 no Distúdio, itaim paulista e seu vídeo encontra-se disponível e dividido em cinco partes sem cortes no youtube com o nome de ‘‘Trancarua - entrevista’’ ou "pequena ameaça" Links:

http://www.youtube.com/watch?v=bt1R3eu7UjQ // http://www.youtube.com/watch?v=nVBxz3LJIPA // http://www.youtube.com/watch?v=HxJoaCPFs8g // http://www.youtube.com/watch?v=_uHJ9N0FY2U // http://www.youtube.com/watch?v=tzDxr0NAfdQ // .

E agradecer o chatão do Cainã por emprestar a câmera da sua mãe para realizar esta conversa.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Viver a anarquia!



















Na quinta-feira à noite, 1 de outubro, quando faltavam apenas alguns minutos para começar o dia 2 - dia fatídico, símbolo indiscutível da repressão e da barbárie, no México - um companheiro chegado me disse que na parte da manhã, tinha sido preso novamente Alfredo Maria Bonanno. Desta vez na cidade de Trikala, no norte da Grécia.

A prisão ocorreu minutos depois de uma expropriação conseguida numa sucursal bancária no centro da cidade helênica. Com 46,900 Euros no saco, Alfredo e seu parceiro, de idéias e ação, Christos Stratigopoulos, conseguiram fugir da cena de carro; infelizmente, foram interceptados numa barreira policial após enfrentamento com disparos com as autoridades. Acusados de roubo com arma – depois de nove horas de audiência – ambos foram condenados a “prisão preventiva”, sentença que, segundo a legislação grega, pode ir até dezoito meses de prisão.

Alfredo Maria Bonanno, editor responsável das revistas Provocazione e Anarchismo desde a década de oitenta, com mais de vinte volumes e uma infinidade de brochuras a saber [1], sem dúvida, é o mais importante teórico do anarquismo contemporâneo, conhecido no nosso meio pelas suas reflexões à volta do projeto insurrecional e suas aproximações metodológicas. Entre os seus livros destacam-se Poder y Contrapoder, La dimensión anárquica, Teoría y Práctica de la Insurrección, La destrucción necesaria e, Afinidad y organización informal. Igualmente, são de salientar entre a sua ampla produção de brochuras, La tensión anárquica, Otra vuelta de tuerca del capitalismo e El placer armado, esta última proibida na Itália e pelo que o condenaram a 18 meses de prisão, acusado de “apologia à violência e à subversão”.

Voltaria a visitar a prisão em 1989, ao ser detido com seu companheiro Pippo Stasi, Durante uma expropriação frustrada pela polícia a uma joalheria em Bergamo. Desta vez, permaneceria dois anos na prisão ao serem reduzidas todas as condenações por decreto governamental, numa tentativa de nivelar as diferenças na administração da justiça resultante da aplicação do novo Código Penal. Para Alfredo e Pippo, esta foi apenas uma questão de "boa sorte" e uma excelente oportunidade de "voltar à luta”.[2] Em meados de novembro de 1995, desenvolve-se na Itália uma caça às bruxas anti- anarquista. A operação repressiva seria chefiada pelo promotor Antonio Marini e ficaria tristemente conhecida como o "Processo Marini”, transbordando os limites da infâmia. Entre os delírios do Procurador estaria a invenção da ORAI (Organização Revolucionária Anarquista Insurrecional), organização fantasma que iria colocar atrás das grades, em 1996, sessenta e oito anarquistas, incluindo Alfredo Maria Bonnano, acusado de ser o autor intelectual e o ideólogo dessa dita organização . A farsa, supostamente sustentada na brochura de sua autoria "Nueva vuelta de tuerca del capitalismo", na qual, segundo a acusação, é sintetizado o “programa fundacional” da organização rebelde. O "processo Marini" culminaria em 20 de abril de 2004, com a condenação de onze dos companheiros detidos. Bonanno, seria um deles, condenado a seis anos de prisão por “apologia e propaganda subversiva” entre outros “delitos”.

Alfredo, nasceu na cidade de Catania, Sicilia, em 1937. Aos 13 anos teve o seu primeiro encontro com o anarquismo, num movimento totalmente polarizado. Naquela época este estava fortemente dividido entre “puristas” e “revisionistas”. No primeiro grupo, concentra-se a maior parte do anarquismo italiano, organizados dentro da FAI (Federação Anarquista Italiana); o segundo, se constituía à volta da corrente conduzida por Pier Carlo Masini, com rígidas abordagens em prol da “unidade tática”. Esta corrente, designada como “revisionista marxista” era uma divisão no interior da FAI, dirigida por Masini e animada por jovens que provinham mais do antifascismo que do movimento anarquista propriamente dito, alguns deles integrantes de Gioventù Anarchica. Foi nessa época que Pier Carlo Masini, indo a Catania fazer uma palestra apelou à formação de um movimento disciplinado, orientado e federado, que impulsionasse o proletariado e fosse a sua vanguarda; obsequiando os presentes com L’ Impulso [3] a modo de apresentação. Pouco depois, durante o Encontro de Frascati, celebrado em 12 de março de 1950, o grupo de Masini separa-se da FAI, ao não serem admitidos no dito encontro, constituindo-se como os Gruppi Anarchici di Azione Proletaria (GAAP).

Todavia, não seria antes de 1953 no “Congresso Nazionale di Civitavecchia” que se produziria a ruptura definitiva entre os gaapistas e a FAI. A partir daí os GAAP perderiam influência e se consumiriam, passando a engrossar diferentes organizações da esquerda autoritária e demostrando as suas verdadeiras intenções. [4]
Perante esta dicotomia tão primária, no interior do especifismo italiano, a maioria dos jovens optaria por desligar-se, separando-se da Gioventù Anarchica. Por não se sentirem identificados com nenhuma das correntes em conflito, viriam a constituir uma miríade de grupos nomeados segundo a região ou cidade a que pertenciam (Milano I, Bologna I, etc.), diferenciando-se assim do GAAP e da FAI. [5] Estes jovens, voltavam o olhar para a história do anarquismo e recorriam a práticas da organização informal e à ação direta, deixando por um lado o “anarquismo de laboratório” (e de salão) da FAI e o bolchevismo “libertário” dos Grupos Anarquistas de Ação Proletária. Sem querer, foi o primeiro passo em direção ao caminho, dezessete anos depois, que conduziria ao abandono do nefasto “anarquismo em transição”. [6]


Retomando as práticas anarquistas, conseqüentes com as suas teorias, a expropriação tornou-se rapidamente o meio ideal para estes núcleos autônomos de jovens que, através da práxis, começavam a difundir o seu ideal. Começaram por se apropriar dos meios necessários para editar as suas publicações e logo em seguida dos materiais para o ataque direto contra o Estado-capital e seus representantes. Assim, alguns desses grupos de afinidade decidiram arrecadar os fundos necessários para a realização do primeiro Campeggio Anarchico Giovanille. Desta forma, entrariam em contato com José Lluis Facerías, que estava refugiado na Itália naquela época sob o pseudônimo de Alberto e que apoiaria com entusiasmo o projeto que, sob o seu impulso, logo se materializaria em "Campeggio Anarchico Internazionale”. Verdade seja dita, embora em teoria fosse assumidamente anarco-sindicalista e defensor da organização centralizada, na prática exigia a expropriação e a ação direta e como método de organização recomendava um grupo mínimo de afinidade. Assim, juntamente com outro companheiro espanhol, forma um grupo de ação integrado por 2 jovens de Gênova e um de Turim, que realiza uma expropriação de sucesso à custa do Banco de Turim. A esta ação seguiram-se inúmeras expropriações ao largo e no interior de toda a bota itálica [referencia à forma do país que parece uma bota] que tornariam possível o primeiro acampamento e os subseqüentes [7]. Sem dúvida estes fatos influenciariam de forma decisiva os jovens anarquistas italianos nos anos cinqüenta, entre eles, Alfredo Maria Bonanno. [8]

Aos 73 anos, com mais de cinqüenta anos dedicados, em pensamento e ação, à Anarquia, Alfredo Maria Bonanno, continua na luta, coerente com a práxis que perfilha e com o seu projeto de vida: VIVER A ANARQUIA. Por isso, em alguns setores "obscuros" dos nossos meios é condenado e, pior, é silenciado. Não há a menor dúvida: Alfredo, é uma ameaça, não só para o clero e o Estado-capital que combates diariamente com unhas e dentes. É também uma ameaça para o “oficialismo libertário" e um flagelo para a reação imobilista que se disfarça com a sua camisa negra no conforto do status quo, apelando à inação e que deposita as suas “esperanças” na evolução eterna e parcimoniosa da Humanidade. Alfredo vive a Anarquia, não a abandona ao laboratório nem - muito menos - a limita ao passado, reduzindo-a à comemoração de efemérides e à leitura passiva dos livros de história.
Hoje, aqui e em todas as partes, urge a SOLIDARIEDADE com Alfredo e Christos. Não a solidariedade puritana das Carmelitas Descalças em Comunhão com a Santa Anarquia, a SOLIDARIEDADE DIRETA com os nossos companheiros de luta, nossos irmãos de idéias. Essa SOLIDARIEDADE DIRETA que faz cair os poderosos e aterroriza os "incluídos". A SOLIDARIEDADE ANÁRQUICA, que estremece o Estado-capital cada vez que se concretiza. Essa SOLIDARIEDADE que nos incentiva a destruir o presente porque os nossos corações habitam o futuro. Demonstremos que deste lado do Atlântico também vivemos a Anarquia!


Gustavo Rodríguez. México, Outubro de 2009

Nota: Os advogados defensores de Alfredo Maria Bonanno, solicitaram às autoridades gregas que lhe seja concedida "prisão domiciliária" por razões de saúde. Neste momento ocorrem jornadas de solidariedade a favor dos companheiros, tanto na Grécia, como na maioria dos países onde se registra presença ativa anarquista. Foi também criado um Fundo de Solidariedade para com Alfredo e Christos, que pode ser contatado através do endereço de email: smolikas2@gmail.gr

Ensaios de Alfredo María Bonanno traduzidos em castelhano:

Autogestión. Campo Abierto Ediciones. Madrid, 1977.
Anarquismo y elecciones. Editorial Síntesis. Barcelona. 1979
No podréis pararnos. La lucha anarquista revolucionaria en Italia. (Seleção de textos). Ediciones Conspiración e Editorial Klinamen. Barcelona, 2005.
El placer armado
La tensión anarquista
Enfermedad y capital
Movimiento ficticio y movimiento real Destruyamos el trabajo
Unas breves notas sobre Sacco y Vanzetti
Nueva vuelta de tuerca del capitalismo
El proyecto insurreccional
• Crítica a los Métodos Sindicales
• Por una Internacional Antiautoritaria Insurreccionalista
No podréis pararnos. La lucha anarquista revolucionaria en Italia
. (Seleção de textos). Ediciones Conspiración y Editorial Klinamen. Encontra-se disponível em formato PDFem: http://www.editorialklinamen.org/archivos/libros/nopodreis.pdf


Textos em inglês em:

http://theanarchistlibrary.org/category/collaborative-tagging/alfredo-m-bonanno
Todos os seus livros, folhetos e artigos, em italiano, em: www.edizionianarchismo.net

Alguns dos seus textos também foram traduzidos para o alemão, croata, francês, grego e russo.

[1] A sua obra consta de vinte e três livros editados e seis em preparação, além de dezoito folhetos impressos, que em conjunto com os seus textos, versam a Anarquia, o poder, a religião e a autonomia individual, entre outros temas. Em particular, faz-se ênfase no projeto insurreccional anárquico e sua metodología.

[2] Vid, carta de Alfredo Bonanno e Pippo Stasi, no final da condenação. Disponível em: http://alphabetthreat.co.uk/elephanteditions/provocazione/textarticles/gladtoseeyou.txt

[3] L’Impulso, começou a ser publicado em setembro de 1949, como Órgão do Comité Inter-regional para um movimento orientado e federado. Vid, Téllez, Antonio. A guerrilha urbana I. Facerías, págs. 273-275. Ruedo Ibérico Ediciones, París, 1974.

[4] O seu máximo líder, Pier Carlo Masini, passou-se para as filas do Partido Comunista Italiano. L’Impulso: publicou-se até abril de 1957, quando o GAAP se fundiu definitivamente com o “Movimento da Siniestra Comunista” que tinha o seu próprio órgão oficial “Azione Comunista”. Ibidem. p. 274.

[5] Id.

[6] Quando falamos de anarquismos “clássico”, “de transição” e “pos-clássico”, Trata-se de oferecer uma idéia de sequência temporal, a partir das teorias desenvolvidas por Rafael Spósito (Daniel Barret), absolutamente necessárias na hora de analizar o desenvolvimento do anarquismo, sem que isso implique, como aponta Spósito, que o assunto se esgote -nem muito menos- a compreensão dos seus meandros teóricos e ideológicos.

[7] Téllez, A, Op cit. p. 279.

[8] Bonanno, Alfredo María, A mano armata, Pensiero e Azione -14, Edizioni Anarchismo, Trieste. 2009.


Tradução > Liberdade à Solta


agência de notícias anarquistas - ana

domingo, 29 de novembro de 2009

Vida Refinada [trecho]
























O açúcar branco é a sacarose isolada pelo refinamento do caldo da cana-de-açúcar. Não é um alimento encontrado pronto na natureza, sendo necessário ser isolado e concentrado por processos industriais. Consequentemente, não é um alimento saudável. A natureza nos fornece alimentos completos, com nutrientes correlacionados, não substâncias isoladas. Fomos adaptados para digerir a glicose encontrada nas frutas, nos tubérculos, nos cereais, e não a superdose introduzida com o açúcar refinado. Essa alta dosagem de glicose de uma só vez desestabiliza nosso metabolismo, provocando perda de minerais como o cálcio, magnésio, dentre outros.

Sua ingestão regular pode causar diversos problemas de saúde como: osteoporose, obesidade, câncer, cárie, reumatismo e diabetes melito. A diabetes é o melhor exemplo de como uma substância criada artificialmente pode danificar para sempre nosso organismo – isso porque a função de tal composto é unicamente ser saboroso. Se quiser levar uma vida saudável, a pessoa que desenvolve diabetes deverá fazer o que todos já devíamos fazer: levar uma alimentação sem açúcar branco. O impressionante é que até 300 anos atrás ninguém usava aditivos doces nas refeições diárias. Hoje em dia, muitas pessoas diabéticas veem na abstenção do açúcar um empecilho para encontrar prazer na sua alimentação.

A divisão do trabalho permite que as atividades necessárias para a manutenção da sociedade massificada sejam divididas entre as classes sociais. A cada classe compete um determinado tipo de atividade e a cada tipo de atividade cabe uma remuneração. Quanto mais complexa a sociedade, maior a gama de atividades (e remunerações). O termo divisão social do trabalho é o mais adequado e completo, uma vez que as barreiras de classe determinam os diferentes trabalhos e remunerações – a faxineira não realiza a atividade do engenheiro, e muito menos ganha um salário próximo ao valor do salário deste. E vice-versa.

Abrigo, alimento, saúde e higiene são demandas de cada indivíduo e, logo, de toda a sociedade ao mesmo tempo. No entanto, as atividades necessárias para que disponhamos desses itens estão divididas socialmente de uma forma desigual. Ou seja, as demandas são de todos igualmente, mas o trabalho realizado para o suprimento delas não é dividido de forma igualitária. Alguns trabalham mais que outros, alguns sujam as mãos mais que outros, mas alguns – que não são estes – são mais bem remunerados.

Algumas de nossas atividades cotidianas podem ser mais prazerosas que outras. Mas o domínio da realização de todas elas é indispensável para fundamentar a autonomia individual e para a superação do estado de alienação que nos mantém reféns daqueles que detêm o monopólio do capital, das ferramentas, da terra, do conhecimento e da tecnologia que sustentam a sociedade de massas. Mesmo assim, tendemos a dar mais atenção às atividades mais prazerosas.

A divisão social do trabalho permite àqueles que possuem maiores recursos relegar a maior parte do trabalho sujo a outras pessoas que a realizam em troca de um salário ou alguma outra recompensa. Quanto maiores os recursos financeiros, maior a capacidade de relegar a outros as atividades necessárias, porém não tão prazerosas. É uma maneira de "refinar" a vida, extraindo dela apenas o suprassumo do prazer, como se o resto não existisse – exatamente como fazemos com a sacarose da cana-de-açúcar.

Essa prática é embasada em uma maneira de ver o mundo entranhada em nossos hábitos. Aprendemos que é melhor lutar por um bom emprego, um alto salário, para que possamos pagar àqueles que pertencem a uma classe social inferior para que sujem as mãos por nós enquanto desfrutamos do "melhor" que a "vida" tem para oferecer. Todos os garçons, cozinheiras, porteiros, faxineiras, vigilantes, entregadores, secretárias e motoristas sabem do que estou falando.

Não é de se estranhar que quando uma catástrofe natural ou uma guerra colocam uma grande população à mercê dela mesma da noite para o dia, sem estado e infraestruturas básicas (abrigo, alimento, saúde e higiene), ela seja acometida por diversas outras tragédias. Como vimos nos recente exemplos em Nova Orleans, no Haiti, no Iraque, grupos se organizam para saquear, a violência se torna incontrolável, doenças se espalham, pessoas morrem por falta de serviços médicos, de saneamento e de comida. Elas não apenas não estão preparadas para viver sem a administração estatal, sem hierarquias, como também não conseguem lidar sozinhas com a manutenção de suas necessidades básicas, pois as estruturas físicas e sociais da divisão do trabalho simplesmente evaporaram sem ninguém ter ensinado como obter tudo aquilo de outra maneira que não pagando para que outros cuidem disso para elas.


Catharina Disangelista



Trecho do livro "SELVAGE - Da anarquia à selvageria".

Coletivo Você Tem Que Desistir - 2010

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Faça com que este reino caia!






















"Que todos os reis se afoguem no sangue de suas conquistas
E todas as bandeiras morram nos topos de seus mastros
Que todos os glutões sejam empalhados nas costelas dos famintos
E todos os padres vendam suas almas
Que todos os sonhadores acordem em um mundo que é vazio
Que os amantes traiam e sejam traídos
Que os poetas se engasguem com suas próprias doces mentiras
E todos se curvem perante seus destinos
Que todos os que buscam vaguem perdidos através dos vales e desertos
E se deitem para dormir sobre pedras
Que os doentes floresçam
E os saudáveis sofram
Que os ratos lutem pelos ossos
Que o ódio domine impiedosamente um mundo dos condenados onde os rios cessem de correr
Deixe que o Sol se ponha para sempre no quebrado coração dessa Terra"*
Faça com que este Reino caia!


* trecho extraído da música "The Witch's Heart" do álbum "passion" da banda catharsis

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Ações pela Libertação Animal e da Terra pelo mundo!





[México] Ataque incendiário contra museu de caça Albarran em Guadalajara

Comunicado:

Na escuridão da noite de 8 de outubro, a nossa célula penetrou em uma das colônias mais luxuoso da nossa cidade onde se encontra um lugar que expõem cadáveres de animais como troféus, assassinados por um dos homens mais ricos de Guadalajara que pensa que pode abusar dos animais sem receber um merecido revide, e assim foi. Mais de 11 litros de gasolina arderam na fachada do lugar, e ainda deixamos uma mensagem: "respeite a vida selvagem animal e da terra - FLA". E escapulimos na escuridão como sombras.

Queremos esclarecer à imprensa e à polícia que o nosso grupo não é apenas um bando de "jovens" sem qualquer fundamento ideológico, nossos fundamentos se baseiam na liberdade e respeito por todos os seres que existem, por isso lutamos para abolir o antropocentrismo, culpado pelo assassinato da terra e pela dominação dos animais; ressaltamos que nossos ataques seguirão, e nossas ações serão cada vez mais eficazes.

Frente de Libertação Animal (Animal Liberation Front, ALF)

[Suécia] Visons liberados em Eksjo

A mídia informou que cerca de 1.000 visons foram liberados de suas gaiolas em uma fazenda em Eksjo, em 5 de outubro.

Tubulações de água e equipamentos agrícolas da fazenda também foram destruídos. Esta é a quarta vez que a fazenda é alvo de uma ação liberacionista, a mais recente foi levada a cabo em abril último.

O agricultor já anunciou que irá fechar a fazenda.

[Dinamarca] Mais de 10 mil visons liberados

A mídia dinamarquesa informou que mais de 10000 visons foram libertados das gaiolas de duas grandes fazendas de peles nesta semana. Durante a noite de 6 de outubro 6000 visons foram libertados de uma fazenda perto de Søndervig após as gaiolas serem abertas e os portões da propriedade destruídos. Em seguida, na madrugada do dia 9 de outubro, 5000 visões foram liberados de suas gaiolas em uma fazenda na cidade de Fousing.

[Reino Unido] Sabotagem contra carros de um circo

No norte de Londres, vários veículos do Zippos Circus foram arranhados e suas portas sabotadas (coladas) na noite de 4 de outubro, em nome da Frente de Libertação Animal (Animal Liberation Front, ALF). “Os animais não são propriedade do circo e pessoas compassivas não deixarão de realizar essas ações até que se acabe a escravidão.“

[Reino Unido] Peixe resgatado de um parque

Na sexta-feira, 3 de outubro, um peixe foi liberado de um stand de um parque de diversões onde estava a ser usado como um prêmio. Lá muitos peixes são tratados como brinquedos, em vez de indivíduos vivos, e estão todos em pequenos sacos de plástico, onde apenas conseguem dar uma volta ao seu redor. Depois de várias tentativas para matá-lo pelo pessoal do stand, o peixe foi alcançado e levado para uma casa onde ele está atualmente à espera de ser enviado para um lugar melhor.

Até que todos sejam livres!

[Itália] Visons são libertados em Castel di Sangro

130 visons foram liberados de uma pequena fazenda em Castel di Sangro, de propriedade de Raffaele D'Amico. Segundo a imprensa local, todas as gaiolas foram abertas, todos os cartões de reprodução (de identificação) foram destruídos e a sala de extermínio foi incendiada. Essa fazenda já tinha sido alvo do ataque da Frente de Libertação Animal (Animal Liberation Front, ALF) em 2003, e o agricultor está atualmente a ser julgado por agressão contra os ativistas da PETA (People for the Ethical Treatment of Animals - Pessoas pelo Tratamento Ético aos Animais) que organizaram uma manifestação junto com uma equipe de TV no interior da fazenda há alguns anos atrás.

[México] Sabotagem contra torre de telefone celular

Comunicado:

Na noite de 4 de outubro nós nos dirigimos para o matagal próximo do viaduto Atizapana, sobre a rodovia México-Toluca, no Estado do México; para sabotar uma das muitas propriedades da empresa destruidora Telmex, se tratava de uma grande torre de telefone celular que estava protegida por uma cerca de metal. O impacto ambiental de implantar uma torre como esta sobre a terra é indiscutivelmente prejudicial, uma vez que para introduzi-la sobre a natureza teve que ser cortado diferentes árvores onde viviam diversas espécies, contribuindo assim para que muitas das ondas magnéticas que emitem essas torres deixem a terra árida e seca.

Ao analisar esses efeitos e outras coisas, concluímos que a sabotagem contra este maquinário destruídor dos ecossistemas e que expande a civilização deve ser agora! Nós não vamos permitir que empresas como a Telmex continue com o seu luxo de andar transformando a terra em uma mercadoria para lucrar sem receber uma resposta vigorosa dos e das eco-radicais.

É por isso que nós montamos um dispositivo incendiário, com seis litros de gasolina; temos penetrado nesta propriedade “privada” destruindo suas cercas e pusemos tal dispositivo no alto dos cabos que conduziam os sinais telefonia. Como era esperado nosso presente funcionou bem, e o fogo destruiu completamente os cabos, além das caixas centrais que estavam abaixo da torre explodiram deixando a torre do nojento Carlos Slim inutilizada, causando prejuízos de milhares de pesos.

Frente de Libertação da Terra (Earth Liberation Front, ELF)

[Rússia] Ataque incendiário contra máquinas em Moscou

Comunicado:

Chegou a hora de dizermos: "Chega!"

Esta noite de 2 de outubro, proclamamo-la como o início da nossa luta, a luta da Frente de Libertação da Terra (Earth Liberation Front, ELF). Luta contra aqueles que, apesar dos protestos populares, destroem impiedosamente a Natureza para sacar as suas vantagens monetárias.

Desta vez, pagaram por seus atos, queimamos um trator e uma retroescavadeira que cavava uma trincheira ao longo da floresta Butovskiy para colocar uma tubulação de água quente para o edifício do Serviço de Inteligência. Com esse plano eles pretendem cortar 135 árvores e 268 arbustos. O Serviço de Inteligência quer exterminar a floresta, fato que vai piorar a situação ecológica no sul de Moscou.

Não ouviram (não queriam ouvir) a voz do povo, por isso nessa noite de 2 de outubro iluminamos o nosso caminho de casa queimando suas máquinas.

Queremos que este atuar seja um estímulo para mais ações audazes, contra aqueles que estão matando a terra.

Quando não ajuda a força da palavra, ajuda a força do fogo.

Madrugada de 3 de outubro...

Frente de Libertação da Terra (Earth Liberation Front, ELF)

agência de notícias anarquistas-ana

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Sociedade Morta-viva

O que significa ser “humano”, ou o que significa “ser humano”? Esta questão tem se tornado cada vez mais importante ao observamos um mundo moderno que parece “hostil ao homem” ou “desumano”. Existe uma grande indisposição de refletir sobre esta questão, pois a definição do conceito de humano recai sobre a questão do sentido da vida humana, o que é uma questão “metafísica demais” para o homem moderno. Este se acostuma a encontrar seu sentido na falta de sentido, e em nada mais. O sentido humano inclui a pergunta pela “função” humana, não no sentido funcionalista, mas no sentido da pergunta milenar “porque estamos aqui”, ou “qual o nosso papel na existência”?

Ao tentar definir nossa humanidade, os filósofos recorreram a uma série de aspectos do homem, desde a racionalidade até sua composição genética. Mas a pergunta pelo papel do homem não envolve apenas uma característica interna do homem. Envolve a etologia humana, ou seja, o comportamento humano, incluindo aí a cultura, as crenças e a ética. Hoje em dia, o significado da pergunta “o que você faz?” ou “qual a sua função?” é entendida como “qual é seu trabalho/emprego”. A pergunta sobre o que fazemos relaciona-se com a pergunta sobre qual o nosso papel, o que acaba determinando nossa auto-imagem, quer dizer, nosso conceito sobre quem somos. A pergunta “quem você pensa que é?” remete ao status social, o que por sua vez remete a uma profissão. Não raro, o primeiro dado biográfico que procuramos sobre as pessoas, logo depois do nome, é a profissão, a ocupação, o cargo, o lugar que esta pessoa ocupa não apenas na sociedade, mas na sociedade do trabalho. As roupas que vestimos e o modo como nos portamos reflete nossa posição nessa sociedade.

Num mundo que provoca tanto o trauma quanto o vício pelo trabalho, os eventos que ocorrem no local de trabalho ou os pensamentos decorrentes da atividade do trabalho têm sido os temas mais comuns nas conversas informais, mesmo nas conversas entre familiares, entre casais, entre amigos ou entre estranhos. O trabalho, e tudo que ele suscita, tem invadido gradualmente todo nosso tempo, nossa vida, nossa mente e todas as nossas disposições de ação. O comportamento no trabalho tem se tornado mais “condicionante” para o indivíduo do que sua convivência em qualquer outro espaço social. De fato, a tendência “alienante” do trabalho repetitivo, comum na era industrial, foi substituída por uma etologia que leva “a vida para o trabalho” e “o trabalho para vida”, em todos os seus aspectos. Até mesmo o aspecto lúdico, antes dissociado do trabalho, agora pode ser confundido com este, quando se torna mais comum ouvir a frase: “Isto não é brincadeira, é meu trabalho, mas eu me divirto muito com ele”. Assim, a etologia humana está cada vez mais, centrada na sociedade do trabalho, confundindo-se com a etologia do trabalho. Não apenas do trabalho humano, mas do trabalho “civilizado”, isto é, com vias para o progresso de uma sociedade tecnocrática, que muda numa velocidade espantosa, a ponto de não conseguirmos mais dar qualquer adjetivo a ela, pois os adjetivos se tornam rapidamente obsoletos. A mudança de forma desta sociedade está se acelerando a ponto de não podermos mais dar um diagnóstico preciso sobre sua situação.

O “ethos” exigido no local de trabalho, assimilado como “lição de vida” pelos “discursos motivacionais”, tem se tornado um “estilo de vida”, algo que se torna base para o comportamento em todos os outros aspectos da vida, como o relacionamento íntimo, o consumo, a postura ética, o posicionamento político, até mesmo a crença religiosa. A carreira enquanto estilo de vida se torna um fetiche: o indivíduo procura consumir qualquer coisa que esteja relacionado ao seu trabalho, como objetos de decoração que simbolizam sua formação. O olhar cotidiano se torna um “olhar médico”, um “olhar jurídico”, um “olhar filosófico”, e assim por diante. Tudo gira em torno da profissão. O indivíduo tem centralizado vida no trabalho mais do que em qualquer outra de suas capacidades humanas. Em outras palavras, a função artificial, criada para suprir uma sociedade de acúmulo, está substituindo nossa “função humana”, aquela responsabilidade que tínhamos no passado. Nestes termos, a sociedade do trabalho criou uma nova função para o homem, destituindo-o dos deveres que ele tinha antes e substituindo uma ética baseada na relação do homem com o sagrado por uma ética baseada na produção e no consumo.

Esta “função humana original” se assemelha à etologia dos animais não domesticados (ou selvagens), pois eles não vivem no acúmulo de poder, vivem na dádiva da vida. Esta vida “na graça” foi deixada de lado como algo aprisionador, pobre e primitivo. A questão que se coloca é então uma oposição entre trabalho, que é nossa função social nesta estrutura mercadológica, e nossa função humana, que é nossa função no e para o meio em que o humano estava originalmente inserido, no e para o qual ele surgiu. As duas funções não se confundem quando analisamos a humanidade no seu sentido mais amplo. Percebemos a substituição gradativa da função humana pela função do trabalho.

É nesse contexto que se insere a metáfora de uma sociedade de mortos-vivos, que representam seres com aparência superficial de estarem vivos e realizarem funções, porém sem qualquer conteúdo ou sentido para essas funções. Não apenas “somos para morte”, mas nossa função humana perdeu seu valor intrínseco, reduzindo-se a uma função que objetiva apenas a reprodução de comportamentos voltados ao trabalho. Mesmo o que não é chamado de trabalho, como o entretenimento e a arte, existem em função do trabalho, e seguem também a estrutura do trabalho, uma vez que esta assimila todas as atividades humanas e as classifica de acordo com um cálculo de eficiência. Perguntamos-nos o que “compensa” mais, ir ao teatro ou ao cinema, em termos de uma “eficiência de diversão”. Atividades reflexivas, que não nos distraiam o suficiente ou não ocupem ao máximo nossa atenção, são consideradas pouco divertidas. Ver um filme, por exemplo, é preferível a ler um livro, porque as múltiplas imagens fluindo constantemente fixam nossa atenção na multiplicidade de informações, deixando pouco espaço para refletir sobre a mensagem.

Um morto-vivo caracteriza-se por aquele ser que está destituído de sua função enquanto ser vivo, mas que ainda mantém uma função com fim em si mesma, caracterizada por um movimento programado, típico de um autômato ou de um objeto animado por mecanismos invisíveis. Seu “princípio de ação” é controlado por forças estranhas à vida, como um desejo insaciável de destruir/consumir vida pulsante, o que significa consumir aquilo do qual tem carência. Na literatura, mortos-vivos podem ser inteligentes, sedutores e refinados como os vampiros. Podem ter uma aparência atraente, ainda que por meio de um encantamento. Podem mudar de forma, e são imunes a ferimentos. Os mortos-vivos estão à caça dos vivos. Também apresentam a característica de infectar o outro com sua doença ou maldição, espalhando-a como um vírus. Os mortos-vivos andam à noite porque se escondem dos vivos. A vulnerabilidade ao espelho revela que eles também se escondem de si mesmos. São insensíveis e frios.

A perda das funções humanas leva a uma busca constante por algo que parece impossível de ser alcançado, pela reprodução de uma rotina sem sentido e sem finalidade. Isto é o que acomete todos os membros de uma sociedade morta-viva, gerando medo, raiva, desespero. A morte-vida, diferente da morte, se espalha dominando as mentes e os corpos, num movimento de expansão de influência e poder por via do engano e da violência. A morte fecha o ciclo da vida, mas a morte-vida impede o fechamento do ciclo da vida, criando um ciclo infindável dentro do ciclo vital, como uma referência circular ou um “loop infinito”. Ela nos desliga de nosso propósito como seres humanos e nos leva para uma espiral descendente de acúmulo e expansão de poder, seja pela brutalidade ou pela astúcia.

Não é por coincidência que alguns autores relacionaram os morto-vivos à maldição de Caim, o primeiro agricultor, primeiro assassino e também fundador da primeira cidade. Caim foi condenado a vagar pela terra sem rumo definido e recebeu uma marca que o impede de ser morto, porém todo seu trabalho resulta em cinzas. Ele é por definição o homem destituído de seu papel humano, condenado a caminhar para o vazio, numa existência sem sentido intrínseco.

Caim, que arou seu campo com o sangue de seu irmão, é o primeiro a acumular. Em hebraico, Caim significa “homem de posses”. Ele, que foi herdeiro da condenação ao trabalho pelo pecado da cobiça, agora também se torna fundador de uma nova maldição: a inveja que leva à destruição da vida em função do trabalho.

Nós elegemos o trabalho como fonte não apenas de sustento, mas de sentido existencial. Mesmo quando tentamos fugir do trabalho em atividades artísticas, estas só podem prover sustento porque outra pessoa trabalha para adquiri-las. A arte também pode ser mais procurada quanto menor o sentido de nossas existências, uma vez que ela provém um momento de sentido aparente. Mas a função humana não pode ser resgatada pela atividade artística. O sentido existencial não pode ser substituído pelo sentido estético.

Os membros da sociedade morta-viva são como insetos batendo numa lâmpada que eles pensam ser o sol. Contínua, furiosa e entorpecidamente, concentrando todo seu ser nesse fluxo aparentemente vital, porém originado do auto-engano. Caminhando na mentira que conduz à escuridão da morte do sentido.

Todos os aspectos do trabalho moderno, incluindo a programação de comportamentos pelo cálculo de produtividade, se tornam aspectos da vida moderna. Estes conduzem continuamente o indivíduo ao automatismo e ao artificialismo. E ao mesmo tempo ao prazer, à tentativa de aproveitar ao máximo as experiências agradáveis, ao consumo insaciável de “vida”. Mas a vida transformada em produto também se torna parte de um processo “sem sentido” quando o consumo acaba. Ou seja, este processo é a transformação de tudo que é vida em morte-vida. Luz em escuridão. E quando as luzes se apagam, é cada um por si, não há mais referência comum. Somos nosso único ponto de referência num universo restrito ao eu, onde o outro é uma ameaça, e não faz sentido falar sobre de onde viemos e para onde vamos.


Janos Biro
Goiânia, 01/09/09



Texto extraído do blog Uma Nova Cultura:
http://www.umanovacultura.blogspot.com/

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Juventude Inconformada - Publicação Anarquista

























Publicação anarquista com 8 páginas cheia de textos!

Se quiser receber o zine impresso só entrar em contato através do e-mail:

kaosedanos@hotmail.com ou pequenaameaca@gmail.com

Download do zine:

http://www.4shared.com/file/122722511/b33fca68/zine_-ji-_pdf.html

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

[Peru] Pronunciamento libertário sobre os acontecimentos na Amazônia





















Pretendem que a gente viva uma farsa. O poder opressor (Capital, Estado etc.) não somente utiliza da violência física para nos controlar, mas também cria uma jaula invisível chamada “normalidade” para se apoderar do pensamento e das aspirações dos dominados, impedindo-os de ver a possibilidade de sua própria libertação. Quem desobedecer será sancionado socialmente como sonhador ou subversivo. Os meios de comunicação também são armas: disparam cortinas de fumaça para desviar a nossa atenção, e assim esquecemos as injustiças cotidianas. A imprensa maquia os fatos, os transforma em mercadoria, banaliza a morte. Por isso, enquanto as pessoas eram assassinadas em Bagua, rapidamente o sistema tratou, em primeiro plano, de fazer um teatro, exaltando novas glórias esportivas, com manchetes repletas de fervor patriótico: o vermelho da bandeira peruana se sobrepondo ao vermelho do sangue dos mortos no conflito ainda não resolvido na Amazônia.

O regime pretende ocultar que ainda existem centenas de desaparecidos, dezenas de presos, famílias desconsoladas, comunidades incompletas, pois, no ataque policial, muitos daqueles que fugiram ainda não voltaram. As arbitrariedades nas prisões são as coisas mais comuns. Pretendem provocar a desmoralização das pessoas para acabar com anos de luta e organização, mas, apesar da repressão, os povos amazônicos seguem dispostos a lutar.

Não, não defendemos a soberania nacional, se isto significa propriedade do Estado e domínio de sua burguesia local. Somos partidários da administração direta das comunidades, de sua capacidade de autogestão. Somos contra o desenvolvimento cego e a indústria depredadora, é o momento de formular formas radicalmente distintas de convivência, sem exploração do homem e da natureza. Não atacamos a empresa transnacional por ser estrangeira, mas sim por ser exploradora, capitalista. A luta amazônica não foi provocada pelo chavismo ou outros supostos agitadores. Estas são mentiras do governo que quer encontrar falsos culpados e negar a capacidade das comunidades de atuarem por si mesmas. Defendemos a autonomia dos povos e desejamos espaços livres de contaminação não somente no Peru, mas em todo o mundo. Este conflito não é uma guerra de “Estados imperialistas” contra suas Neo-colônias, o Capital usa qualquer bandeira (o inimigo também se veste de vermelho e branco) por isso compreendemos que, para nos liberar, é inútil falar de “pátria”.

Não se trata de manter espaços para o turismo ou de uma saudade cafona do bom selvagem. As comunidades indígenas possuem seus próprios conflitos. Não idealizamos, simplesmente somos solidários contra o inimigo comum. O poder opressor tem atacado sem dó, tem matado, continua matando e pretende que a gente olhe para outro lado para que possa prosseguir impunemente. Esta luta é a luta de todos, e se hoje são os indígenas amazônicos, amanhã pode ser qualquer um o “desaparecido”, pois o Estado e o Capital são o mundo da não-troca, da homogeneidade repressiva que cospe em nós se tivermos a ousadia de questioná-los. Para este mundo, somente existimos como objetos, como mercadoria, somos descartáveis.

Lutemos. Vamos opor a essa normalidade homogeneizante a nossa diversidade crítica. Sejamos a negação dessa farsa. Como dizem os zapatistas no México: Se neste mundo não cabemos, então outro mundo terá que ser feito.

Anarquistas em Lima

Sábado,15 de agosto de 2009.

Tradução > Marcelo Yokoi

agência de notícias anarquistas-ana

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Pequena Ameaça # 3 - Publicação Aperiódica Anarquista
























Publicação com 20 páginas contendo Textos, Poemas, Entrevistas, Resenhas, Propagandas Conspiratórias... etc!


Download do Zine:
http://www.4shared.com/get/122724091/5846dd57/pequena_ameaa_-_3_-_PDF.html


obs.: se quiser receber pelo correio é só entrar em contato pelo e-mail: pequenaameaca@gmail.com